Vida acadêmica x Maternidade
Talvez você esteja lendo meu blog pela primeira vez, ou vocês já nem lembrem mais de mim... porque passei muito tempo sem postar para terminar a tese de doutorado e me preparar para a defesa.
Então esse post vai ser uma re-apresentação e re-capitulação de algumas postagens, relacionando minha vida de mãe e a vida acadêmica.
No texto "Um resumo até aqui", eu me apresento, estava no meio de um doutorado, e prestes a sair do Brasil para um doutorado sanduiche na Alemanha, quando descobri que estava grávida. Tive muitas dúvidas, sobre viajar para o sanduiche, sobre viajar grávida, sobre estar grávida no meio de um doutorado, sobre ser mãe e pesquisadora, enfim, sobre muitas coisas na relação vida acadêmica e maternidade, e não achava quase nada na internet, minha única referência era a página Cientista que virou mãe, escrita por duas mulheres que engravidaram uma após o doutorado e outra no meio de suas pós-graduações e que passaram pelo mesmo turbilhão de dúvidas que eu.
Pois é... somente essa referência...
Depois do primeiro baque da gravidez e de encontrar tão poucas referências na internet, depois que inclusive o meu filho já tinha nascido, eu encontrei o blog Bate-papo com Netuno, ele surgiu em março de 2015 (sim antes do Arthur nascer, mas só o conheci após) e tem uma sessão chamada Mulheres na Ciência, onde encontrei relatos de experiências de mulheres pesquisadoras das ciências do mar (muito próximo da minha área), a maioria com finais felizes, mas mostrando que esse final feliz veio em meio a muito estresse, alguns insucessos, e algumas abdicações. (Super-indico a leitura, tem relatos emocionantes).
Então...
O Doutorado acabou, e acabou com a minha aprovação... mas o que posso dizer sobre essa experiência é que a vida acadêmica não tem respeito pela maternidade e muitas vezes nos obriga por optar seguir a carreira ou por "criar nossos filhos". Meu companheiro diz que a realidade fora do Brasil é muito pior. Eu imagino que as dificuldades sejam piores mesmo, já que lá é mais difícil e exige mais dinheiro para se ter uma babá, e as famílias são mais independentes, sem a proximidade dos avós, que aqui no Brasil, por ex., muitas vezes ocupam o papel de cuidadores para que os pais consigam trabalhar.
Como não tenho uma longa vivência no exterior, devo dizer que no Brasil, durante o tempo de licença maternidade e retorno ao trabalho, eu sofri muito, sofri calada, e tive muitas dificuldades para terminar a minha tese. Vou por partes:
1. Licença maternidade - Eu tinha bolsa do CNPq, e pelo contrato eu tenho direito à licença maternidade de 4 meses, sei que não é culpa desta instituição, mas pra mim é inaceitável, que depois de tanto que já foi publicado e de todas as recomendações da OMS, o Governo Federal Brasileiro ainda não permita uma licença maternidade de 6 meses!
É um absurdo, e contraditório, o SUS gastar milhões em campanha para o aleitamento materno exclusivo até os 6 meses, e, se obrigar que as mães retornem ao trabalho antes de se completar esse ciclo. E é mais absurdo ainda, que se pague uma bolsa de R$ 2.200,00 à uma pessoa que tem que se dedicar EXCLUSIVAMENTE a uma atividade, lhe concedendo APENAS 4 meses de licença maternidade, porque com esse dinheiro é IMPOSSÍVEL pagar um cuidador ou creche. Se você pensou em creches públicas, em Belém, a realidade dos jornais mostra além da falta de vagas, um descaso por parte dos governantes com esse setor da educação.
Eu tive a "sorte" de poder deixar meu filho com a minha mãe, tinha que tirar leite muitas vezes de madrugada e durante o trabalho, porque até essa fase o ainda não havia sido inaugurada a sala de amamentação na UFPA. Além do fato de que eu tinha que sair correndo no almoço, ir na casa da minha mãe, amamentar e voltar ao trabalho.
2. Assédio Moral - Infelizmente, as pessoas, (principalmente) àquelas que vivem essa realidade frenética da academia de publicar muitos artigos em revistas de alto impacto, ah e diga-se de passagem, àquelas que não têm filhos (e por isso vivem essa vida frenética), não entendem que um filho demanda tempo e atenção, até os 6m temos além das consultas de rotina, vacinas, e, a partir dos 6m inicia-se um ciclo de introdução alimentar, e os pequenos ficam um pouco mais suscetíveis a viroses, então é comum que se falte muito ao trabalho. E eu faltava mesmo, porque embora a vida acadêmica permita sim, uma flexibilidade de horários, essa flexibilização depende muito o coordenador do laboratório. Então, mesmo em licença maternidade, eu recebi e-mails de cobrança de relatório, de dados, de envio de dados a plataformas, etc, e normalmente, eu respondia somente depois de meia-noite, e ainda tinha que ouvir que o pedido era "PRA ONTEM". Depois do retorno ao trabalho, cada falta era olhada com desconfiança, e sempre gerava um comentário sarcástico ou até mesmo piadinhas no laboratório. Fora todas as vezes que eu tive que ouvir a frase " Você não vai conseguir, eu já vi tudo" ou " Estou muito preocupada com seus prazos porque você não vai conseguir cumprí-los", os quais muitas vezes me deprimiam e me convenciam de que eu não conseguiria e enfrentaria um possível jubilamento...
Além disso, quero chamar a atenção ao fato de que a CAPES, tem uma avaliação trienal dos programas de pós-graduação, que estimula essa forma de publicações desenfreadas, e muitas das vezes, na busca de qualificar melhor as pessoas que saem da pós-graduação, para que estes não sejam meros "parasitas" de bolsas, acabam por criar medidas que estimulem as publicações entre os alunos e os professores do programa, além de tentar fazer com que as pessoas terminem suas teses ou dissertações dentro do prazo, contudo na prática o que acontece, é que os programas acabam cerceando cada vez mais as conquistas dos estudantes e vou dar alguns exemplos:
2.1. Saiu uma portaria conjunta CAPES/CNPq em 2010, que permitia aos estudantes bolsistas, receber complementação financeira (bolsa ou salário), contudo necessitando da AUTORIZAÇÃO do orientador, o que acontece na prática é que muitas vezes o orientador não autoriza.
2.2. Um dos quesitos que dá pontuação na avaliação trienal da CAPES dos programas de pós-graduação é o tempo de conclusão da tese ou dissertação, o que acontece na prática é que os professores de alguns programas de pós - graduação estão combinando entre si, não permitir mais que o aluno consiga uma extensão de prazo e jubilando o mesmo, porque jubilamento não tem penalidade (pelo menos foi o que eu entendi) na avaliação. Por esta razão, eu só pedi 2 meses de extensão, e soube que houve protestos para que eu ganhasse estes 2 meses, porque se eu ganhasse estes míseros 2 meses, eu iria aumentar em 0,5 anos o tempo de conclusão dos doutorandos do curso.
Então o que aconteceu é que após muitas tentativas e erros, muitos experimentos que deram errados, muitos resultados inconclusivos, eu fui praticamente obrigada a defender sem alguns resultados que seriam importantes para a tese. Ah, e eu ainda tenho que enfatizar, que eu não tive financiamento durante meu primeiro ano de doutorado, e que após ter que voltar antecipadamente do sanduiche por conta da minha gravidez, eu só recebi os equipamentos necessários para algumas análises de laboratório no início desse ano, o que me atrasou na escrita da tese... de modo que eu só tive praticamente 3 meses pra escrever tudo, um capítulo que eu iniciei antes de entrar de licença e mais 2, além do capítulo integrador.
Em meio a tanto estresse, vejo o quanto isso prejudicou um pouco minha relação com o Arthur, porque nos últimos 2 meses, eu saía de casa às 8h da manhã e só retornava às 20h - 21h da noite, então o que aconteceu é que eu não podia ir ao banheiro fazer xixi, que ele entrava em desespero, achando que eu iria sumir mais uma vez... além do fato de ter minha confiança no meu trabalho abalada, e viver num estresse e tristeza constantes, tentei não transparecer isso pro Arthur, mas muitas vezes, naqueles momentos que eles mais "testam" nossa paciência, esse estresse vinha à tona justamente, pela ausência de paciência com meu filho de apenas 1 ano.
Enfim...
Mais uma fogueira que pulamos, eu defendi no dia 29 de agosto de 2016 às 14h, e tive aprovação, mas com muitas correções a serem feitas (não mandatórias). Agora estou pulando a fogueira do desemprego... e cogitando o tão famoso empreendedorismo materno, a que muitas mães lançam mão para poder alavancar (ou não) os rendimentos da família.
E a partir desta data... e deste desabafo... voltamos à nossa programação normal.
Obrigada pelo apoio!
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