Cesárea x Parto Normal - O parto que eu quero? Ou o parto que deve ser?

Tema delicado, espero que as pessoas não me levem a mal. Eu acho que a mulher deve ter o parto (ou não parto) que quiser, desde que esteja ciente das informações, efeitos, evidências que são mostradas pelos avanços na medicina. Além disso, esse blog, tem muito da minha visão pessoal, então gostaria muito que fosse respeitada, mas todos são livres para apresentar uma visão diferente.

Sei que disse no post anterior, que iria falar sobre os profissionais de saúde, mas pensei muito e achei que era melhor falar um pouco sobre parto e nascimento, antes de falar daqueles que às vezes agem de coadjuvantes nesses eventos.

Sou defensora do parto normal! Vou melhorar... Sou defensora de um parto HUMANIZADO! Devo dizer, que desde o primeiro minuto que descobri que estava grávida, eu tinha uma certeza na minha cabeça: Eu queria PARIR! Depois que eu assisti o filme "O Renascimento do parto", essa certeza criou raízes em mim, e adicionou mais um desejo, eu queria parir EM CASA!
- Eu ficava no meu tempo livre, caçando vídeos de parto (devo dizer que são viciantes), um dos primeiros que eu vi foi esse aqui... no Canal "Além do Olhar" tem vários, um mais lindo que o outro.- 

Enfim... Percebi que no Brasil, seria difícil, a primeira médica que eu fui, na primeira consulta quando eu disse que queria ter normal, disse o seguinte: "Calma mãezinha, vamos ver como vai desenrolar sua gravidez, se tudo der certo, será normal, sim! Mas eu cobro R$ 5 mil reais pra ficar disponível pra você, mais 4 mil a acomodação em apartamento, mais não sei quanto do anestesista, mais a equipe..." enfim... sei que teria que pagar uns R$ 15 mil se eu quisesse parir... fiquei chocada! Porque eu não tinha todo esse dinheiro, nem o meu companheiro, nem meus pais... fiquei triste pensando que nenhum médico, mesmo com meu plano de saúde incluindo a parte obstétrica, iria aceitar sem cobrar por fora, e vou dizer que essa é uma realidade, só que não assim tão distante em termos de valores...

Depois que frequentei o Ishtar, descobri o nome de uma médica, que foi AQUELA que realizou os partos de quase todas que estavam ali para fazer seus relatos de parto (e de não parto), todas falavam maravilhas dela e todas disseram que ela não atendia por planos de saúde (já imaginei que seria tão caro, quanto o valor absurdo que a outra médica havia me repassado), mas resolvi marcar uma consulta com ela antes de viajar... Eu paguei R$ 170,  pela consulta, mostrei os exames que eu já tinha feito, e levei a receita com os remédioS (sim no plural), que a médica anterior havia prescrito...
A primeira coisa que ela falou pra mim foi o seguinte: "Se chegaste até aqui é porque queres parir, então vamos lá"... nada de "calma", "vamos ver", "se"... nada de blá blá blá... ela me examinou, olhou meus exames, anotou tudo, me deu um cartão de pré-natal (algo que a médica anterior não havia me dado) e depois conversou muito comigo, muito mesmo, sem pressa de ter trocentas mulheres esperando depois de mim para serem atendidas (porque as consultas são com hora marcada e começam pontualmente). Saí de lá renovada! Com a certeza de que eu estava em boas mãos! Viajei sem peso na consciência, ela me passou o whatsapp dela e disse para eu enviar exames e outras informações pertinentes do meu pré-natal na Alemanha.

Na Alemanha, foi outra realidade, que me mostrou o quanto o Brasil segue na contra-mão dos países que chamamos de primeiro mundo (ao invés de usá-los de exemplo). Meu médico era um senhor, era um ginecologista, não um obstetra, porque na Alemanha são separados, e aí já começa o primeiro choque de realidade: Você acompanha seu pré-natal com o ginecologista, eles faz todos os exames, e só prescreve remédios em casos de quase morte. O obstetra acompanha o parto, somente QUANDO NECESSÁRIO, porque os partos são assistidos pelas Hebamme (parteira, em alemão), e somente em casos de emergência o obstetra entra em ação. A regra é que se gravidez não é doença, você não precisa de um médico para o parto, a não ser que seja detectada alguma doença ou emergência no percurso...
Antes do meu retorno ao Brasil, meu médico disse que estava muito preocupado, porque ele conhecia a realidade do meu país das cesárias eletivas, e antes que ele gastasse todo o inglês dele, eu disse que meu desejo era parir em casa e que já havia me informado a respeito... ele imediatamente abriu um sorriso, e disse que estava mais tranquilo! deu-me o e-mail dele, e disse pra escrever e mandar uma foto quando meu filho nascesse.

Em nenhum momento, em nenhuma consulta, ele sequer cogitou uma cesárea, ele sequer tocou nesse assunto, porque lá, aparentemente, não se escolhe a via de parto, o normal é ser "normal", e a cesárea faz seu papel de salvadora de vidas, quando algo não vai bem... Percebem a diferença? No Brasil, um parto só pode ser normal se tudo correr bem, na Alemanha, só pode ser cesárea, se algo der errado, parece uma questão de semântica, mas não é! O normal tem esse nome por uma razão, porque normalmente tudo corre bem!

No Brasil, quase todas as minhas amigas, que tiveram filhos, apresentaram um "problema" que as fizeram cair em uma cesárea, agora me digam, porque no Brasil tantas mulheres apresentam problemas no final da gestação? A medicina aqui é tão avançada, que detecta problemas que nos outros países, ninguém detecta? Ou será o contrário? A taxa normal de um país para cesáreas é de aproximadamente 15%, porque essa deveria ser a média de casos que algo "não vai bem" e por isso a cesárea seria necessária. No Brasil essa porcentagem é de mais de 50%... acho que algo não vai bem, mas não com as grávidas, não com os bebês, e sim com os profissionais de saúde no país.

Algumas pessoas dirão que as mulheres brasileiras têm uma preferência por cesárea... e aqui vem meu ponto de vista, e experiência, mais uma vez...

Antes de viajar, contei somente para amigos muito próximos que estava grávida, e logo algumas amigas me perguntaram se eu ía "tentar ter normal?", gente vejam como a pergunta não faz sentido! E quando eu voltei e já todos sabiam que eu estava grávida, esse assunto era um "trend topic", sim muitas amigas minhas queria saber o porquê da louca, hippie, índia, querer ter um parto normal, querer sentir dor e elas tinham tanta DESINFORMAÇÃO, e sabiam de TANTOS casos que deram errado e a criança morreu... mas ninguém se perguntava por que elas sabiam de tantos casos que deram errado, e não conheciam nenhum que tinha dado certo... 
Porque o discurso dos médicos é dominante sobre o desejo da mulher, porque o profissional, estudou vários anos da vida dele, e com certeza sabe do que está falado, e quem é essa grávida/parturiente para questionar as informações repassadas por ele? Porque nas novelas (não só da globo) quando uma mulher vai parir, é sempre uma tensão, são gritos horrendos, é tudo desesperador, angustiante, feio...
E assim, o discurso de que a cesárea salva, foi se perpetuando, mesmo nos casos que ela trás mais risco do que realmente ajuda. E ainda, existe a pressão de mulheres, que pariram, em uma realidade de violência obstétrica, com enfermeiras dizendo pra ela se calar, que ela tem que deitar pra parir, que a dizem pra fazer força quando era pra recuperar o fôlego, que a cortam pra AJUDAR o bebê a sair, que puxam o bebê porque tem que ser rápido se não ele morre... enfim... com tanta desinformação, com tanta violência assim, eu entendo que tantas mulheres tenham pânico de parir...
Não as culpo, nem nunca culparei, mas culpo o sistema... sim, primeiro porque perpetua práticas que já foram abolidas por vários países, porque já se comprovaram que são desnecessárias, perpetuam nas aulas de medicina, perpetuam o comportamento capitalista de que uma cesária paga mais, tem hora pra começar e hora pra terminar, são mais cômodas, muitas razões, mas nenhuma delas realmente baseada no bem-estar do bebê ou da mulher. Só numa busca rápida achei vários artigos sobre algumas das práticas, mas pretendo ainda escrever sobre cada uma delas, então prefiro indicar o Blog da Dra. Melania que é uma GO, muito reconhecida no Brasil por suas práticas não intervencionistas.

Tanto é um discurso distorcido aqui no Brasil, que lá na Alemanha, quando eu dizia que estava grávida, eu ouvi de todas as mulheres, que parir era transformador, e me relatavam seus partos e como elas renasceram, com o nascimento de cada um de seus filhos, e relatos muito emocionantes! Então pra mim ficou claro, que existe um problema em nosso país sim... 

Então, infelizmente, sinto dizer às minhas amigas (a maioria delas) que foram enganadas, foram enganadas pelo sistema, enganadas por seus médicos, enganadas pela tv... Se elas escolheram ter cesárea, e acreditam que fizeram essa escolha por livre e espontânea vontade, sinto em dizer que vocês foram as mais enganadas... sinto muito em dizer isso... Porque ninguém, em sã consciência, que entende de riscos médicos, que está ciente da medicina baseada em evidências, que tem acesso à pesquisa científica de qualidade, escolheria uma cesárea para seu filho vir ao mundo. Porque a cesárea não foi criada para ser uma opção, ela foi criada para salvar vidas, quando a mulher ainda em trabalho de parto ou um pouco antes do trabalho de parto dá sinais de que algo vai errado. A cesárea é salvadora sim, quando bem usada! 

Vou colocar aqui alguns trabalhos que mostram as diferenças entre bebê que nasceram via cesárea e bebês que nasceram via normal, e quais as influências de uma cesárea sobre o desenvolvimento deles:

http://www.pnas.org/content/suppl/2010/06/09/1002601107.DCSupplemental - aqui mostra como se dá a colonização bacteriana em bebês nascidos por cesárea e via normal, justificando o porquê de bebês nascidos via cesárea têm mais pré-disposição a alergias.

http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1365-2222.2008.02939.x/abstract;jsessionid=A3D1D87B6BF5257FC251E0972E5A66D8.f01t04 - metanálise mostrando que cesáreas aumentam os riscos de bebês nascerem com alergias alimentares, asma, rinites.

http://journals.lww.com/epidem/pages/articleviewer.aspx?year=2007&issue=07000&article=00014&type=abstract - mostra algumas consequências do aumento de cesáreas sem necessidade

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed?Db=pubmed&Cmd=Retrieve&list_uids=9589218&dopt=abstractplus - mostra diferenças no padrão de sono em bebês nascidos por cesárea e aqueles nascido via parto normal

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-89102011000400001&lng=en&nrm=iso&tlng=en -  mostra que as cesáreas no Brasil, são feitas em sua maioria para atender convenientemente a agenda dos médicos.

Existem alguns trabalhos que mostram benefícios da cesárea eletiva:
confesso que só achei esse:

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17011400 -  mostrando a prevenção de alguns problemas que acontecem durante o parto, que são diminuídos via cesárea.


Se você quer saber se sofreu violência obstétrica a defensoria pública de SP, fez um folder que sintetiza algumas das práticas mais comuns: http://www.defensoria.sp.gov.br/dpesp/repositorio/41/violencia%20obstetrica.pdf

Agora de posse de algumas informações, sabendo que a maioria dos partos normais sofrido, foram pela presença da violência obstétrica. Espero que quem estivesse tentada a aceitar uma cesárea eletiva, repense na sua atitude, se para isso você precisa mudar de médico, no próximo post darei algumas indicações em Belém.






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