#maternidadereal x comercial de margarina

Eu vou sair um pouco da ordem lógica dos posts que eu vinha fazendo pra comentar sobre toda a polêmica da mãe que não aceitou a brincadeira do "Desafio da Maternidade". Pra quem não viu (acho difícil, mass... vou situar xs leitorxs), começou a rodar no facebook uma brincadeira, na qual uma mãe deveria postar 3 fotos que faziam ela se sentir feliz em ser mãe e depois ela deveria marcar mais 10 outras mães para fazer o mesmo. Eu sinceramente achei bem legal, porque eu fiz a seguinte interpretação: ser mãe é tão difícil.. que tem determinadas imagens, que são memoráveis por nos mostrar que APESAR de TUDO é possível ser feliz e ter momentos de felicidade indescritível com nossa cria.
Eu realmente não achei que o desafio teve uma conotação de iludir e/ou mostrar, que a maternidade é aquela coisa romantizada de comercial de margarina, pelo contrário, na minha visão o objetivo era mostrar que é possível ser feliz ou ter muitos momentos felizes sendo mãe.

Mas, sendo o Brasil um país livre, e que a liberdade de expressão existe, óbvio que teve quem se recusou a participar da brincadeira e deu suas justificativas para isso. Uma delas, a Juliana Reis, por sinal fez um post com uma justificativa muito louvável e que é o retrato da maternidade real:





O que aconteceu é que o post viralizou, e a moça foi aplaudida por muitas e apedrejada por várias, e no meio do apedrejamento, teve uma enxurrada de denúncias e o Facebook acabou por bloquear o perfil dela.
Bom gente, eu mesma já postei várias vezes no meu face, algumas das várias dificuldades que a maternidade trás pra nossa vida, e já fui reprimida por isso, por mães (de filhxs com a mesma idade do meu), mas principalmente por mães mais velhas (da idade da minha mãe ou mais), pelo contexto histórico do nosso país machista dá pra entender que essa imagem de que "quando nasce um bebê, nasce uma mãe" fosse enfiada na cabeça das mulheres, como uma lavagem cerebral, porque se pararmos pra pensar, o aborto masculino sempre foi legalizado, já pensou se fosse legalizado pra mulher abandonar a cria também, depois de passar por todas as intempéries da maternidade real?! 

Enfim... uma coisa que eu aprendi depois que o Arthur nasceu, é que "Eu ERA uma EXCELENTE mãe, até meu filho NASCER", então, eu criei o lema "não julgarei" pra minha vida, porque o que as mães mais precisam cultivar é a SORORIDADE!!
Sororidade nada mais é do que a empatia entre as mulheres, então, mostrando toda minha empatia às mães que enfrentam dificuldades diariamente, vou listar todas as dificuldades que já passei desde a gravidez:
1- Ao descobrir que estava grávida, eu estava com a passagem marcada para fazer o doutorado sanduiche na Alemanha, e tive que ouvir muito que "gravidez não era doença pra eu cancelar a minha passagem", que era melhor esperar "passar os 3 primeiros meses pra ver se a gravidez ía vingar", que "eu tinha cagado a minha vida acadêmica e/ou profissional" - Sim, a primeira dificuldade que a gente enfrenta é o preconceito no trabalho.
2- Eu viajei sozinha, passei praticamente toda a minha gravidez sozinha, em outro país, cuja língua eu não falava, no inverno, no momento que a gente tá com a sensibilidade à flor da pele... chorei muito... muito por vários dias seguidos e intercalados...
3- Enfrentei muito preconceito quando decidi não saber o sexo do meu filho... me chamaram de louca pra baixo...
4- Mais preconceito ainda quando decidi ter um parto em casa...
5- Mais preconceito ainda quando resolvi que ía usar fralda de pano...
6- Tive que aprender a lidar com as mudanças de planos, primeiro porque o Arthur ficou sentado até o final da gravidez, e depois porque ele já estava com quase 42 semanas e eu tive que fazer uma cesárea de emergência
7- Tive que lidar com as dores de um pós-cirúrgico tendo que cuidar de um bebê recém-nascido
8- Fui Muito julgada quando pedi àqueles que eram nossos amigos para não nos visitar no primeiro mês de nascimento
9- Tive hiperlactação, hipergalactia, seios ingurgitados, dor ao amamentar, o Arthur mamava errado (quem disse que já nascem sabendo mamar?), bicos racharam, ductos entupidos, febre do leite e sempre me diziam depois do primeiro mês passa (chorei quase todos os dias)... não passou, depois do segundo mês passa... não passou... depois do terceiro mês passa... não passou... só foi melhorar no quarto mês e eu já tinha que voltar ao trabalho...
10- descobri que o Arthur era APLV - muitas noites mal dormidas, muito sofrimento com o sofrimento dele, chorei muito...
11- Consegui negociar voltar a trabalhar quando o Arthur fizesse 6 meses, mas estava com o doutorado tão atrasado que tive que engolir o choro e voltar quando ele completou 5 meses...
12- Tive que enfrentar o sofrimento de perder o desenvolvimento dele diariamente, pra trabalhar o dia inteiro, até hoje eu choro quando recebo uma foto dele no meio do dia...
13- Tenho que ouvir toda semana da minha orientadora o quanto ela está preocupada com o atraso do meu trabalho porque todo mês ou toda semana tem um problema (filho que não dormiu a noite e aí não consigo ir trabalhar, filho doente, sair mais cedo porque o filho não pára de chorar, etc.)
14- Tenho que ouvir que deveria desmamar o meu filho pra ele depender menos de mim e eu conseguir trabalhar mais tranquila
15- tenho que trabalhar com os seios cheios de leite que as vezes ficam muito doloridos...
16- tenho que ouvir que dou muito colo e mimo meu filho demais
17- tenho que ouvir que sou desleixada, porque deixo a louça suja na pia ou não varro a casa ou arrumo a casa, ou não tenho vontade de cozinhar às vezes por dias seguidos, porque quando chego do trabalho, só quero tomar banho e dormir dando de mamar...
18- Tenho que ouvir que ficamos mais eficientes depois de ter filhos, mas esse não foi o meu caso...
19 - tenho que ouvir que eu só carreguei na barriga porque ele é a cara do pai (hehe)
20- Aumentaram as brigas no relacionamento por discordâncias na criação do nosso filho
Mas pra mim, ultimamente o maior desafio tem sido conseguir lidar com a pressão no trabalho e a saudade, é difícil conseguir me concentrar, é difícil pra mim, aceitar que meu filho está sendo criado praticamente pela minha mãe... a gente carrega uma culpa constante... e um sentimento de que estamos fazendo tudo errado, além aquele choro preso na garganta... 
Essa é a minha maternidade real... 


...só que em 1 minuto que eu olho meu filho, meu coração enche de um amor e uma felicidade que pra mim é indescritível e apaga tudo de triste e/ou ruim que estava me incomodando, até o primeiro choro ou birra que ele fizer... hahahahahhaha...

E mesmo assim... eu quero mais um... se eu fosse rica teria mais 2... huahuhauhauau





Comentários

  1. É mana, como muitas coisas na vida a maternidade tem suas alegrias e tristezas. Mas uma certeza podes ter na cabeça e no coração: o Arthur tem a melhor mãe do mundo. :*

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